Durante muitos anos, fazer análises de manhã significava quase automaticamente sair de casa sem pequeno-almoço. Às vezes até sem beber água. A ideia ficou tão enraizada que ainda hoje há quem faça oito, dez ou doze horas de jejum por precaução, mesmo quando nenhuma das análises pedidas o exige.
O problema é que o jejum não melhora todas as análises. Em algumas é necessário porque o que comemos altera diretamente o parâmetro que se pretende medir. Noutras, acrescenta desconforto sem trazer informação clínica relevante.
A preparação correta não consiste, portanto, em ficar o máximo de horas possível sem comer. Consiste em saber exatamente que análises foram pedidas e em que condições devem ser realizadas.
Jejum não é uma regra para todas as análises
Uma refeição desencadeia várias respostas no organismo. A glicose sobe, são libertadas hormonas, os lípidos circulantes podem alterar-se e o metabolismo passa temporariamente para um estado diferente daquele que existe após várias horas sem ingestão de alimentos.
Se o objetivo da análise é medir precisamente um parâmetro influenciado por estas alterações, o momento da colheita importa.
Mas muitos outros componentes do sangue não precisam dessa condição para serem avaliados de forma clinicamente útil.
É o caso, por exemplo, do hemograma. A contagem de glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas não exige habitualmente que a pessoa esteja em jejum. A hemoglobina glicada, ou HbA1c, também não necessita de jejum, porque pretende refletir a exposição média à glicose ao longo dos últimos dois a três meses e não aquilo que aconteceu ao pequeno-almoço dessa manhã.
O mesmo princípio aplica-se a várias outras análises. Por isso, receber uma requisição com muitos parâmetros não significa automaticamente que todos eles obriguem a jejum.
Quando o jejum é realmente importante
Um dos exemplos mais claros é a glicemia em jejum.
Quando se pretende medir a glicose plasmática em jejum para rastreio ou diagnóstico de alterações do metabolismo da glicose, é necessário que não exista ingestão calórica durante pelo menos oito horas. Sem essa condição, deixa de ser possível interpretar o resultado como uma verdadeira glicemia em jejum.
A prova oral de tolerância à glicose também exige preparação específica. Neste exame, é feita uma primeira medição após jejum e, depois, administrada uma quantidade definida de glicose, seguindo-se novas colheitas em momentos determinados.
Aqui, as condições do teste fazem parte do próprio diagnóstico. Alterá-las significa alterar aquilo que está a ser medido.
Existem ainda outros exames em que o médico ou o laboratório pode pedir jejum por razões específicas. O detalhe importante é precisamente esse: a necessidade depende do exame e do contexto clínico, não de uma regra aplicada indistintamente a qualquer colheita de sangue.
E o colesterol? Aqui a resposta mudou
Talvez nenhum exame esteja tão associado ao jejum como o colesterol.
Durante décadas, o perfil lipídico foi habitualmente realizado depois de várias horas sem comer. Hoje sabemos que, para grande parte das avaliações de rotina do colesterol e do risco cardiovascular, uma amostra sem jejum fornece informação clinicamente válida.
O colesterol total, o HDL e várias outras componentes do perfil lipídico sofrem alterações relativamente pequenas depois de uma refeição habitual. Os triglicéridos são mais sensíveis ao estado alimentar, mas isso não significa que todas as pessoas precisem de realizar sempre estas análises em jejum.
As recomendações europeias passaram, por isso, a aceitar e até a favorecer amostras sem jejum na avaliação lipídica de rotina.
Há exceções. Valores de triglicéridos particularmente elevados, determinadas situações metabólicas ou uma indicação clínica específica podem justificar uma nova análise em jejum.
É um bom exemplo de como uma instrução que fez sentido durante muitos anos não deve ser aplicada automaticamente a todas as pessoas.

Fazer jejum significa nem sequer beber água?
Não. Quando é pedido jejum para uma análise de sangue, água simples é geralmente permitida.
Aliás, chegar adequadamente hidratado pode facilitar a própria colheita.
O que não deve ser confundido com água é café, chá, sumos, refrigerantes ou outras bebidas. Mesmo um café sem açúcar não deve ser assumido como compatível com uma análise que exige jejum rigoroso.
Também não é boa ideia transformar a manhã da colheita numa sessão de exercício. Atividade física intensa pode modificar temporariamente vários parâmetros laboratoriais.
O mesmo cuidado se aplica ao tabaco e à pastilha elástica durante o período de jejum.
E há outro erro relativamente frequente: pensar que, se oito horas são suficientes, quinze serão ainda melhores. Não são. Um jejum excessivamente prolongado pode também modificar o metabolismo e não melhora a qualidade da análise.
Quando a indicação é oito ou doze horas, essa janela deve ser respeitada.
E os medicamentos?
Aqui não existe uma regra universal.
Alguns medicamentos devem ser tomados normalmente, mesmo numa manhã de análises. Noutros casos, o momento da toma é relevante para aquilo que se pretende medir.
A decisão também depende da doença em causa e do próprio exame.
Por isso, não se deve suspender um medicamento por iniciativa própria para “não interferir nas análises”. A interrupção pode ser desnecessária e, em determinadas situações, prejudicial.
Vitaminas e suplementos também devem ser comunicados. Alguns podem interferir com determinados testes laboratoriais ou com a sua interpretação.
A questão deve ser esclarecida antecipadamente com o médico ou com o serviço que realiza a colheita, sobretudo quando existem tratamentos regulares.
Este cuidado é particularmente importante em pessoas com diabetes, nas quais prolongar o jejum enquanto se mantém determinada medicação pode aumentar o risco de hipoglicemia.
Se comi sem querer, tenho de voltar noutro dia?
Nem sempre.
Imagine que a pessoa toma o pequeno-almoço e só depois se recorda de que tinha análises marcadas. O primeiro impulso costuma ser cancelar tudo.
Mas talvez uma parte importante dos exames possa ser realizada na mesma.
Se estiverem pedidos um hemograma, HbA1c e outros parâmetros que não dependem de jejum, não existe necessariamente razão para perder toda a colheita. Se também estiver pedida uma glicemia em jejum, essa medição terá de ser interpretada de outra forma ou realizada posteriormente nas condições adequadas.
O importante é não esconder o que aconteceu.
Dizer a que horas comeu, o que bebeu ou se tomou a medicação permite ao profissional perceber se a colheita pode avançar e quais os resultados que poderão ser afetados.
Uma análise laboratorial só é útil quando sabemos em que condições foi feita.
A preparação certa vale mais do que passar fome por precaução
A medicina laboratorial depende de números, mas esses números começam a ser construídos antes de o sangue chegar ao tubo.
O horário, a alimentação, o exercício, a hidratação, alguns medicamentos e até as condições em que a amostra é recolhida podem influenciar determinados resultados.
É por isso que “fazer análises em jejum” não deveria ser uma instrução automática. Há testes em que é indispensável, outros em que pode ser útil em circunstâncias específicas e muitos em que não é necessário.
Na Clinicalvor, quando existem análises prescritas, a preparação deve ser definida de acordo com os parâmetros pedidos e com a situação clínica de cada pessoa. Se houver indicação para jejum, importa saber quanto tempo, o que é permitido beber e como gerir a medicação habitual.
A regra mais segura é também a mais simples: seguir as instruções específicas da colheita em vez de acrescentar restrições por conta própria.
