Um mergulho mal calculado na piscina. Uma travagem a destempo na bicicleta. Um escorregão nas escadas molhadas à saída da praia. Com a chegada do calor, as quedas multiplicam-se e a boca está quase sempre na linha da frente, porque é o que vai à frente quando o equilíbrio falha. Para muitos pais, o primeiro instinto perante um dente partido ou um dente que salta fora é o pânico, seguido de uma pergunta que fica suspensa no ar: e agora, o que faço? A resposta honesta é que o desfecho destas situações raramente se decide no consultório. Decide-se nos minutos imediatos, ainda com a criança a chorar e o coração dos pais aos saltos. Saber o que fazer nesse intervalo curto vale mais do que qualquer tratamento sofisticado que venha depois. E, ao contrário do que parece, não é preciso ser profissional de saúde para fazer a parte mais importante.
A diferença que mais pesa não é a dor. É o relógio.
Quando um dente definitivo sai por completo da boca, aquilo que mais condiciona o resultado não é o tamanho do golpe nem a quantidade de sangue. É o tempo que o dente passa fora do alvéolo, sobretudo o tempo que passa seco. As células que revestem a raiz, e que permitem ao dente voltar a integrar-se no osso, são frágeis e morrem depressa em contacto com o ar. Por isso a evidência científica é consistente: a melhor hipótese de salvar um dente avulsionado é voltar a colocá-lo no sítio nos primeiros minutos. À medida que o tempo passa, a probabilidade de sucesso desce, e quando a raiz seca durante mais de uma hora o prognóstico torna-se reservado. Não é exagero afirmar que a primeira meia hora, com as decisões certas, pesa mais do que tudo o que se faz a seguir. A boa notícia é que essas decisões são simples e estão ao alcance de qualquer adulto presente no momento do acidente. O reflexo de correr logo para o hospital, sem tocar no dente, custa quase sempre tempo que não volta atrás. O essencial resolve-se ali, no local, e só depois se procura a clínica.
Nem todos os dentes se voltam a pôr no sítio
Há um pormenor que muda por completo a forma de agir e que poucos pais conhecem. Um dente de leite avulsionado não deve ser recolocado. Tentar reimplantar um dente decíduo pode danificar o germe do dente permanente que está em formação por baixo, e o risco não compensa o eventual benefício. Já um dente definitivo merece todos os esforços, precisamente porque não há substituto natural à espera para ocupar o lugar. O problema é que, no meio do susto, nem sempre é fácil perceber se o dente que está na mão da criança é de leite ou definitivo. Em traços largos, abaixo dos seis anos quase tudo o que cai pertence à dentição de leite, e a partir dessa idade começam a aparecer os dentes definitivos. Na dúvida, a regra mantém-se tranquila e clara: guardar o dente, não o forçar de volta e telefonar de imediato à clínica para confirmar o melhor caminho antes de qualquer manobra.
Como pegar no dente sem piorar o estrago
O modo como se segura o dente faz toda a diferença. Convém pegar sempre pela coroa, a parte branca e lisa que costuma ficar à vista, e nunca pela raiz, que é exatamente a zona que interessa preservar intacta. Raspar, esfregar ou tentar limpar a raiz com um pano destrói as células que ainda poderiam permitir a reintegração no osso. Se o dente estiver sujo com areia ou terra, basta passá-lo por água ou soro durante poucos segundos, sem qualquer fricção. No caso de um dente definitivo, e se a criança estiver calma e colaborante, o ideal é voltar a encaixá-lo com cuidado no alvéolo, na posição correta, e pedir que morda um pano ou uma gaze limpos para o manter no lugar durante o trajeto. Quando isso não é possível, ou quando subsistem dúvidas, o dente segue connosco até à clínica, bem acondicionado num meio adequado.

O leite pode ser o melhor amigo de um dente
Se não for viável recolocar o dente logo, aquilo que o rodeia durante o transporte determina quase tudo. O melhor meio caseiro, e quase sempre à mão, é o leite, porque mantém as células da raiz vivas durante mais tempo. O soro fisiológico cumpre igualmente bem essa função. Em crianças mais velhas, que já não correm o risco de engolir o dente, a própria saliva resolve: basta manter o dente na boca, entre a bochecha e a gengiva, até chegar ao apoio dentário. Há, no entanto, um erro que vale a pena evitar a todo o custo, que é guardar o dente dentro de água. Por ser muito diferente dos fluidos do corpo, a água acelera a destruição das células da raiz e reduz de forma significativa as hipóteses de sucesso. A mesma lógica aplica-se a um fragmento de um dente partido. Se a criança levou um golpe e sobrou um pedaço de dente, compensa procurá-lo no chão e mantê-lo húmido, porque muitas vezes é possível voltar a colá-lo no seu lugar original.
Quando o dente racha mas continua lá
Nem todos os traumatismos terminam com um dente no chão. Muitas vezes o dente apenas lasca, racha ou fica com um canto em falta. A gravidade depende da profundidade da fratura. Uma lesão que afeta só a camada exterior costuma resolver-se com um polimento ou uma pequena restauração estética. Quando atinge camadas mais internas, a sensibilidade ao frio e ao quente aumenta e o dente precisa de proteção rápida para evitar uma infeção posterior. Se o nervo ficar exposto, o tratamento torna-se mais exigente e o tempo volta a contar a favor de quem age cedo. Por isso, mesmo quando o dente continua no sítio e a dor parece tolerável, justifica-se uma observação sem demora. Entretanto, uma compressa fria encostada à face ajuda a controlar o inchaço, e um analgésico adequado à idade alivia o desconforto. O que nunca deve acontecer é desvalorizar um dente partido só porque a criança, entretanto, deixou de se queixar. A ausência de dor não significa ausência de problema, e um dente que escureceu semanas depois costuma ser o sinal de uma lesão que passou despercebida.
A chegada do calor pede um plano, não só protetor solar
A maioria dos traumatismos dentários da infância acontece em momentos banais de brincadeira, e por isso é impossível evitá-los por completo. Ainda assim, há margem para reduzir o risco e, sobretudo, para reagir melhor. Nas atividades com mais quedas e contacto, um protetor bucal feito à medida protege os dentes da frente, que são quase sempre os primeiros a sofrer. E, em época de férias, longe da clínica habitual, faz todo o sentido saber de antemão onde fica o apoio dentário mais próximo, para não perder minutos preciosos à procura no pior momento possível. A Clinicalvor, em Alvor e Portimão, dá resposta a urgências de medicina dentária e acompanha estas situações com a calma de que uma criança assustada precisa, com recurso a sedação consciente sempre que se justifica. Guardar o dente, mantê-lo húmido e telefonar de imediato continua a ser o plano mais simples e mais eficaz que qualquer família pode ter na manga.
Referências
- https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32472740/
- https://www.aapd.org/research/oral-health-policies–recommendations/guidelines-for-the-management-of-traumatic-dental-injuries-1-fracture-and-luxations-or-permanent-teeth/
- https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC10208297/
- https://www.omd.pt/publico/odontopediatria/cuidados-dentes-leite/



