Para quem perdeu dentes devido a periodontite, a ideia de colocar implantes pode levantar uma dúvida muito legítima: se a doença destruiu o suporte dos dentes naturais, o que impede que aconteça algo semelhante à volta dos implantes?
A resposta exige algum cuidado. Uma pessoa com antecedentes de periodontite pode, em muitos casos, receber implantes dentários. Mas há uma condição essencial: a doença periodontal deve estar tratada e clinicamente estável antes de iniciar o tratamento implantológico.
Isto não significa que o risco passe a ser igual ao de alguém que nunca teve periodontite. O historial da doença continua a ter importância. Significa que esse risco pode ser identificado, reduzido e acompanhado através de um planeamento adequado e de uma manutenção rigorosa.
A diferença está precisamente aqui: colocar o implante é apenas uma parte do tratamento. Preservá-lo ao longo dos anos começa muito antes da cirurgia.
Periodontite controlada não significa que a doença nunca existiu
A periodontite é uma doença inflamatória crónica que afeta os tecidos que sustentam os dentes. O biofilme bacteriano funciona como o principal desencadeador da resposta inflamatória e, em pessoas suscetíveis, essa inflamação pode provocar destruição progressiva do ligamento periodontal e do osso alveolar.
Nem sempre dói. Aliás, uma das características que tornam a periodontite particularmente traiçoeira é poder progredir durante bastante tempo com sintomas discretos. Sangramento gengival, retração da gengiva, mau hálito persistente, mobilidade dentária ou alterações na posição dos dentes podem surgir à medida que a doença evolui.
O tratamento procura controlar a inflamação, reduzir os depósitos bacterianos e criar condições para que o próprio paciente consiga manter uma boa higiene oral no dia a dia.
Depois dessa fase, falamos em estabilidade periodontal quando os parâmetros clínicos indicam que a doença está controlada. Isso não apaga o historial de periodontite. Uma pessoa que já perdeu suporte periodontal continua a necessitar de vigilância e de cuidados de manutenção ao longo da vida.
Esta distinção é particularmente importante quando se pensa em implantes.
Primeiro controlar a periodontite, depois pensar nos implantes
Colocar um implante num contexto de doença periodontal ativa não é uma boa estratégia.
Antes da cirurgia, é necessário avaliar toda a boca, tratar os focos de inflamação e verificar se o paciente consegue controlar adequadamente o biofilme. Gengivas com sangramento frequente, bolsas periodontais ativas ou acumulação significativa de placa são sinais de que ainda existe trabalho a fazer antes de avançar.
As recomendações clínicas europeias para a prevenção das doenças peri-implantares são claras neste ponto: a gengivite e a periodontite devem estar tratadas até atingir estabilidade clínica antes da colocação dos implantes, e o paciente deve aderir posteriormente a um programa de cuidados de manutenção.
Não se trata de criar uma barreira ao tratamento. Trata-se de melhorar as condições em que o implante vai começar a sua vida funcional.
Também é necessário avaliar quanto osso permanece disponível. A periodontite pode provocar perda óssea significativa e, dependendo da localização e da extensão dessa perda, podem ser necessários procedimentos de regeneração ou outras estratégias de planeamento implantológico.
Por isso, a questão nunca deve ser apenas “a periodontite está controlada?”. Deve ser também “quais são as condições atuais dos tecidos, do osso e da higiene oral?”.
Um implante não tem periodonto, mas também pode perder suporte
Um implante não desenvolve periodontite no sentido estrito, porque não possui o mesmo ligamento periodontal de um dente natural. Isso não significa que esteja protegido contra doenças inflamatórias.
À volta do implante existem gengiva e osso que também podem sofrer inflamação.
A mucosite peri-implantar corresponde a uma inflamação dos tecidos moles que rodeiam o implante, sem perda progressiva do osso de suporte. Quando a inflamação se associa a perda óssea progressiva, falamos em peri-implantite.
Esta distinção ajuda a perceber por que razão o acompanhamento continua a ser tão importante depois de terminar a reabilitação.
Uma pessoa que perdeu dentes devido a periodontite apresenta um risco superior de desenvolver complicações biológicas à volta dos implantes quando comparada com alguém sem historial da doença. Revisões sistemáticas continuam a identificar uma associação entre antecedentes de periodontite, maior ocorrência de peri-implantite, maior perda óssea peri-implantar e maior risco de perda de implantes.
Isto não significa que os implantes estejam condenados a falhar. Significa que não devemos tratar todos os pacientes como se tivessem o mesmo perfil de risco.

O sucesso começa muito antes de colocar o implante
Num paciente com historial de periodontite, o planeamento deve considerar mais do que a zona onde falta o dente.
É importante avaliar a estabilidade periodontal da restante dentição, a capacidade de higiene, o volume de osso disponível, a posição ideal do futuro implante e a forma como a prótese permitirá a sua limpeza.
Uma prótese difícil de higienizar pode transformar-se num problema mesmo quando a cirurgia decorreu perfeitamente. O desenho da reabilitação deve permitir acesso adequado à escova e aos dispositivos de limpeza interdental, bem como facilitar a avaliação profissional dos tecidos peri-implantares.
Outros fatores também entram na equação. O tabagismo, por exemplo, está associado a maior risco de complicações periodontais e peri-implantares. O controlo metabólico em pessoas com diabetes, os hábitos de higiene e a adesão às consultas de manutenção também devem ser avaliados.
É por isso que não existe uma resposta baseada apenas numa radiografia ou num número.
Duas pessoas com a mesma quantidade de osso podem ter prognósticos muito diferentes se uma apresentar boa estabilidade periodontal e excelente controlo de placa e a outra mantiver inflamação ativa e dificuldade persistente na higiene.
A manutenção não é opcional depois dos implantes
Há uma ideia que merece ser corrigida: colocar implantes não significa deixar para trás a periodontite e começar de novo com estruturas que já não precisam dos mesmos cuidados.
Na realidade, quem tem historial de doença periodontal deve encarar a manutenção como parte integrante do tratamento implantológico.
Nas consultas periódicas, são avaliados os tecidos à volta dos dentes e dos implantes, a presença de placa, o sangramento, a profundidade dos tecidos peri-implantares e outros sinais que possam sugerir inflamação. Quando necessário, os exames radiográficos ajudam a acompanhar os níveis ósseos.
A frequência destas consultas não deve ser igual para todas as pessoas. Deve ser adaptada ao risco individual, ao historial da doença, à qualidade da higiene oral e à estabilidade observada ao longo do tempo.
O trabalho feito em casa tem o mesmo peso. Uma boa técnica de escovagem, a limpeza eficaz entre os dentes e implantes e a utilização dos dispositivos recomendados para cada prótese fazem parte da prevenção.
Num paciente com periodontite previamente tratada, esta rotina não é um cuidado extra. É aquilo que permite manter o controlo conquistado durante o tratamento periodontal.
Ter tido periodontite muda o plano, não elimina necessariamente a opção
Existe uma diferença importante entre contraindicação e risco acrescido.
Um historial de periodontite não constitui, por si só, uma proibição absoluta à colocação de implantes. A evidência mostra, contudo, que estes pacientes apresentam maior probabilidade de algumas complicações biológicas e, por isso, precisam de seleção, tratamento e acompanhamento mais rigorosos.
É também necessário reconhecer que nem todos os casos de periodontite são iguais. A extensão da destruição periodontal, a velocidade com que a doença progrediu, o número de dentes afetados e outros fatores influenciam o prognóstico.
Em determinados pacientes, pode ser preferível estabilizar a situação durante algum tempo antes de avançar. Noutros, pode ser necessário regenerar osso ou modificar o plano inicialmente previsto. E existem situações em que outra forma de reabilitação pode oferecer uma solução mais adequada.
A implantologia não começa pela escolha do implante. Começa pelo diagnóstico.
O objetivo não é apenas colocar implantes, é conseguir mantê-los
Quando a periodontite está controlada, a pergunta deixa de ser simplesmente “posso colocar implantes?” e passa a ser “existem condições para os colocar e manter de forma previsível?”.
É uma diferença importante.
Na Clinicalvor, a articulação entre Periodontia e Implantologia permite avaliar primeiro a saúde dos tecidos de suporte e só depois definir a estratégia de reabilitação. Nos casos em que é necessária uma avaliação tridimensional do osso, a radiologia 3D pode acrescentar informação relevante ao planeamento.
Para quem já teve periodontite, o tratamento não termina no dia em que recebe os novos dentes. A manutenção periodontal e peri-implantar continua a fazer parte do processo.
Uma periodontite tratada e estável pode ser compatível com uma reabilitação com implantes. Mas o historial da doença deve continuar presente nas decisões clínicas, não para impedir o tratamento, mas para o tornar mais seguro e sustentável a longo prazo.
Referências
- https://www.efp.org/education/continuing-education/clinical-guidelines/guideline-on-treatment-of-stage-i-iii-periodontitis/
- https://www.efp.org/education/continuing-education/clinical-guidelines/guideline-on-treatment-of-peri-implant-diseases/
- https://www.efp.org/for-patients/dental-implants/faqs/
- https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26381260/
- https://www.clinicalvor.pt/medicina-dentaria/periodontia/
- https://www.clinicalvor.pt/medicinadentaria/implantologia



